Entrevista de Daniel Radcliffe para a The London Magazine / Autor: Andressa

Daniel Radcliffe
Tendo estabelecido sua carreira como um respeitado ator, ele conta a Tabitha Lasley como venceu seus demônios.

Daniel Radcliffe está tremendo como uma vara verde. Estamos sentados na varanda de um estúdio ao norte de Londres para que ele possa fumar. Ele tem uma pele fina, tão pálida que é quase translúcida, e seus braços estão cobertos de pelos arrepiados. Eu pergunto à ele se quer voltar para dentro.

“Não! Não, não, não, não. Eu estou bem. Não estou com frio.”

Eu sinto que agora que tivemos o trabalho de subir até aqui e encontrar uma porta destrancada, ele se sente obrigado a permanecer, como uma penitência por ter pedido em primeiro lugar. Radcliffe, uma vez, o mais famoso ator quando criança (os filmes de Harry Potter são a franquia com o maior sucesso de bilheteria na história), sabe que as pessoas esperam que ele seja mimado. Então ele é extremamente educado.

“Eu sempre odiei arrogância e mal comportamento.” Ele explica mais tarde. “Eu me lembro de ouvir um pessoal falando sobre Michael Craine. A admiração por ele era universal, por conta de como ele era nos bastidores. Ele fazia todo mundo se sentir bem por estar lá. Você aprende com as pessoas ao seu redor, e você descobre com quem gostaria de se parecer. Se você encorajar honestidade, nunca ficará rodeado por bajuladores. Você tem que estar rodeado por pessoas que iriam te dizer quando você está sendo um idiota.”

Se a vida de Radcliffe fosse uma peça, então o desejo de não ‘ser um idiota’ seria o tema principal. Ele chega cedo para a nossa sessão de fotos; posa com profissionalismo; anda por aí e conversa durante as sessões. Ele lida com as perguntas com uma habilidade tão encantadora, que é impossível dizer se você foi enfeitiçado com uma conexão imediata ou não. Ele certamente é uma boa companhia: cortês, alegre, animado. Tirando alguns pontos no seu rosto, há apenas poucos lembretes de que tem apenas 24 anos. Ele diz que mesmo antes de Potter, como um filho único viciado em livros, ele passou a maior parte do seu tempo com adultos. Eu reajo a essa informação com o que eu acho que seja uma expressão neutra.

“Não olhe para mim como se sentisse pena!” ele ruge. “Eu odeio isso! Jornalistas fazem isso o tempo todo.”

“Desculpe,” eu digo. Ele está apenas brincando, mas também parece um pouco chateado.

“Eu queria um irmão quando era mais novo. Principalmente para ter alguém com quem brigar. Minha namorada tem um ótimo relacionamento com o seu irmão mais novo, então…”

Ele foi deixando as palavras morrerem, talvez se lembrando de sua própria regra de não falar sobre seus relacionamentos em entrevistas. Existem boatos de que ele está noivo da Erin Darke, a atriz norte-americana que ele conheceu nas filmagens de Versos de um Crime, e que a sua co-estrela em Potter, Rupert Grint, seja o padrinho. Será verdade?

“Não. Isso não é nem um pouco verdade. Nós estamos muito felizes, mas não estamos noivos.” Então Rupert não será padrinho? “Não. E não estamos indo para Paris para escolher anéis de noivado, tão pouco.”

Ele mantém a boca fechada sobre Darke, mas fala sobre relacionamentos no geral. Nós estamos conversando sobre a comédia romântica indie que está prestes a estrear, “Será Que?”. Ele diz que tem muito em comum com seu personagem Wallace, que se apaixona por uma garota que tem namorado, e então tem de aceitar em ser apenas seu amigo. Sabendo-se que Radcliffe é famoso globalmente desde os 10 anos, será que ele passou por dificuldades para fazer com que garotas o notassem, assim como Wallace?

“Absolutamente! Tem uma garota que ainda é uma boa amiga, e nós agradecemos por nunca termos ficado, mas com certeza tivemos interesse um pelo outro quando éramos jovens. Eu sinto que certamente já passei pela mesma coisa, os mesmos altos e baixos com relacionamentos. No entanto nunca fui tão cabeça-dura sobre amor como Wallace é.”

Assim como as outras aparições pós-Potter de Radcliffe, “Será Que?” é surpreendentemente alegre. Até agora, ele tem mostrado um certo gosto por filmes obscuros e sinistros: A Mulher de Preto, um sombrio e gótico terror; Versos de um Crime, uma biografia poética da época beat; o lançamento desse ano, Horns, um mágico suspense realístico. Sua primeira peça teatral foi Equus e no início desse ano, repetiu o feito com seu papel em The Cripple of Inishmaan. Ele acha que há distância suficiente entre ele e o garoto bruxo para seguir com esse tipo de papel?

“Nunca houve um esforço consciente para escolher coisas obscuras. Você obviamente quer desafiar a visão que as pessoas têm de você, mas qualquer ator quer fazer isso. Eu recebo um crédito injustificável por escolher uma variedade de papéis porque as pessoas me viram em só um personagem por tanto tempo. Não há um grande plano. Sinto que tenho bons instintos em relação a roteiros, e eu apenas os sigo.”

Realmente, Radcliffe parece ter aceitado o fato de que ele e Harry serão sempre confundidos na mente das pessoas.

“Potter fez muito por mim para que eu dê as costas. Nunca irei dizer: ‘Não me faça perguntas sobre isso’. Lembro de ler uma entrevista com Robert Smith da banda The Cure. Alguém disse a ele: ‘Por que você ainda usa toda essa maquiagem, não acha que já passou?’ e ele disse: ‘Ainda há jovens de 14 anos vindo assistir The Cure pela primeira vez, vestidos desse jeito. Eu nunca iria querer que eles se sentissem como bobos.’ É semelhante com Potter. Pessoas ainda estão descobrindo os livros e filmes. Seria horrível para eles descobrir que as pessoas envolvidas deram as costas. Embora certas vezes, pessoas aparecem e dizem ‘eu adorei você em a Mulher de Preto’, o que é muito legal. São eles sabendo que importa para mim, que eu tenha feito outras coisas.”

Até agora, as ‘outras coisas’ têm dado bons resultados (A Mulher de Preto foi o terror britânico com maior sucesso de bilheteria em 20 anos), embora ele seja duro consigo mesmo. Ele diz que “odeia” sua interpretação em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (“Minha visão de Harry nesse últimos filmes, foi desse veterano de guerra sofrendo de algum tipo de estresse pós-traumático, mas foi apenas muito monótono”) e reconhece que Equus foi sua melhor, pois “você não pode fingir no palco; se você for um fracasso, vai aparecer”. Ele agora vale um valor estimado de 60 milhões de euros, embora afirme não estar interessado no dinheiro; sua mãe cuida da contabilidade. Estranhamente para uma estrela infantil, ele ainda conversa com os dois pais. “Eles dão um apoio incrível”, ele diz. “Eu só tive muita sorte.”

O único momento em que passou da linha no mundo das celebridades foi um período de bebedeira pesado quando estava filmando o Enigma do Príncipe, o qual ele tem atribuído às suas preocupações na carreira pós-Potter. Ele parou de beber em 2010, e diz que é mais fácil na América: “Lá, você pode se encontrar com alguém e não ter nenhuma bebida envolvida. Aqui, se diz: ‘Você quer sair pra beber?’.”

Fora do trabalho, ele vive uma vida tranquila. “Eu nunca fui em uma première de um filme em que eu não esteja atuando, porque prefiro assistir filmes no cinema, sem milhares de pessoas gritando para mim. Todo mundo é pego pelos paparazzi algumas vezes, e você não pode controlar. Mas quanto mais você mostra a cara, menos direito você vai ter de falar: ‘Eu não quero falar sobre isso’.”

Ele afunda mais em seu casaco. Ele agora parece tão frio, que eu sinto a obrigação de fazer esta pergunta a última. Ele foi o garoto escolhido porque ele correspondia à visão do autor, cresceu, e se tornou um homem determinado a provar que podia realmente atuar. Ele conseguiu acabar com aqueles demônios da era Potter sussurrando que ele nunca mais iria arranjar trabalho? Ele olha para os sapatos. “Eu sempre soube que as pessoas falavam isso. Mas eu também sabia que estava mais preparado para a longa jornada do que as pessoas pensavam. Nem todo o filme que eu faço será um sucesso; provavelmente nenhum chegará perto ao sucesso comercial de Potter. Mas eu sempre serei um ator.”

Fonte: The London Magazine
Tradução e adaptação: May Oliveira








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