Entrevista para a Playboy Magazine / Autor: Yolle

Postamos anteriormente, o photoshoot que Daniel fez para a Playboy US. Abaixo vocês conferem a entrevista traduzida pela nossa equipe.

Você tinha 12 anos quando o primeiro filme do Harry Potter estreou. Em que ponto você percebeu que esse papel iria te acompanhar para o resto da vida?

Se tornou claro para mim apenas nos últimos anos. Na sua cabeça, você imagina que tudo vai sumir depois que a série acaba. Quando eu comecei a ir em bares e botecos, estava tentando fingir que podia ter uma existência normal. Então, você percebe que as pessoas sabem quem você é, e quando você está em um bar elas pegam seus celulares com câmera. Eventualmente você aceita que tem que se adaptar.

A série do Potter acabou. A atenção foi embora também?

Parece que hoje eu sou ainda mais reconhecido. Isso que é assustador: Se você tinha 14 anos quando o primeiro filme saiu, você estaria agora nos seus 30 e poderia muito bem ter um filho com menos de 10 anos que está conhecendo agora o que é Harry Potter. Já estamos pegando a próxima geração. Isso é bizarro. E nunca vai embora.

Por que o encanto não acabou?

Porque as histórias são ótimas! Uma grande parte da nossa cultura agora é que quando algo se torna famoso, há sempre uma repercussão. Harry Potter não teve isso. Tem pessoas que não querem ler os livros, mas o número de pessoas que realmente não gostam da série é muito baixo. Os livros são ótimos, e eles saíram na época perfeita, quando havia um medo, por conta da fama dos jogos de computadores, que a leitura iria se tornar uma coisa do passado. Quando as crianças de repente descobriram esses livros, foi algo que todos puderam aproveitar muito.

Você foi bem franco sobre o fato de ter bebido muito entre os 18 e 20 anos. Foi uma reação ao escrutínio público?

Qualquer hora que eu saia para dançar, celulares com câmera apareciam. Isso me deixava muito constrangido, e qual é a maneira mais fácil de escapar o constrangimento? Álcool é uma saída rápida para isso. Então está relacionado nesse sentido. Há uns anos existia uma propaganda na TV que mostrava um monte de inventores, incluindo um cara que inventou o celular com câmera. Ele estava sorrindo presunçosamente para a câmera, e eu fiquei tipo “Vai se danar. Você tem ideia do que fez?”. [risos] Celulares com câmera realmente não são os meus favoritos.

Você disse que era um “bêbado chato, barulhento, inadequado e desarrumado”. Pode nos dizer de que maneiras você era desarrumado?

Não, não, não. Já falei demais. Começa a doer ter que ver seus problemas pessoais, sobre os quais você tentou ser sempre sincero, virar conteúdo para shows de fofoca na TV. Eu fui franco sobre isso, como você disse, mas quando você começa a falar disso, é só disso que você fala. Posso falar várias coisas com boas intenções – por que isso aconteceu e como eu parei de beber – por três horas seguidas e a manchete ainda seria “BÊBADO NO ESTÚDIO DE HARRY POTTER”. Então eu não falo mais sobre isso.

No novo filme Victor Frankenstein, você interpreta o assistente corcunda Igor. Como ator, qual é a sensação de interpretar alguém malformado?

Não é algo como “Ah, legal, como eu posso conseguir uma boa dor nas costas pelos próximos meses?”. É mais aceitar o desafio físico. Se você faz algo que te traz um pouquinho de dor, faz você se sentir como se estivesse trabalhando com um pouco mais de entusiasmo do que normalmente faria como ator. Eu fiz a peça The Cripple of Inishmaan por quatro meses em Londres e nunca tive nenhum problema físico. Fazer o que eu fiz em Frankenstein por três semanas foi difícil. Estou com uma torcicolo que não estava lá antes.

Você é um cara pequeno. O seu tamanho limita os papéis que interpreta?

Acho que não. Dustin Hoffman e Tom Cruise tem carreiras muito difíceis, e ambos têm quase a mesma altura que eu. Eu poderia interpretar um soldado. A altura mínima para um marinheiro é 1,52m e eu sou bem mais alto que isso. Se você está perguntando “Você pode interpretar um cara alto pra caramba?”. Não, obviamente, não. [risos] Posso interpretar um cara negro? Por motivos parecidos, também não. Eu não poderia representar algo em que eu não me levasse a sério. Eu não me levaria a sério como um capitão do time de futebol americano em um filme, o que é a minha única reclamação. Eu adoraria estar em um filme de futebol. O único papel que eu pegaria seria do diretor geral.

Você disse que sua representação em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o quinto filme da série, foi o seu melhor, mas você odeia se assistir no sexto, O Enigma do Príncipe. Como a sua melhor e pior performances puderam ser consecutivas?

Em todos os filmes até o sexto, você pode ver um grande passo quanto a minha atuação. E então isso para, ou talvez até piora, no sexto filme. Eu gostei muito da minha atuação no quinto – parte foi por conta das pessoas com quem trabalhei como Gary Oldman e David Thewlis. Me lembro de assistir o sexto filme e pensar: “Uau, não teve nenhum crescimento”. Você está assistindo um erro que cometeu todos os dias por 11 meses – é assim que eu o via. Tinha a ideia de que Harry era como um soldado traumatizado pela guerra, e como resultado disso, ele se fecha emocionalmente. Isso não é uma má ideia, mas não é uma coisa muito interessante de se ver por duas horas e meia.

Você conheceu sua namorada, Erin Darke, quando estavam filmando Kill Your Darlings. Há uma cena em que a personagem dela te dá um boquete em uma biblioteca. Vocês já namoravam nessa época?

Não. Esse é um grande registro de nós flertando pela primeira vez. Não tem nenhuma atuação envolvida – não por mim, pelo menos. Tem uma hora em que ela me faz rir, e eu estou rindo como eu, e não como o personagem. Ela era incrivelmente engraçada e inteligente. Eu sabia que estava encrencado.

Como o pai dela acabou contando à imprensa que você não estava noivo da filha dele?

Quando eu visitei a casa dela no último Natal, a mídia estava louca em Michigan. Nós estávamos sentados da sala de estar, e o telefone tocou. Seu pai disse: “Hum, é a Imprensa Livre de Detroit”. Eles estavam ligando sobre um rumor de que estávamos lá para nos casarmos às margens no Lago de Michigan. O que foi legal é que conseguiram o número dele porque ele é assinante do jornal. [risos] Eu de repente tive um momento de “Oh, minha vida estranha está agora impactando a sua vida.” Me senti muito mal. Incrivelmente, eles acharam engraçado. Tenho que dizer, normalmente não leio artigos sobre mim, mas eu li todos deles só por terem sido tão bondosos. “Ele comeu no Bob Evans! Ele comprou uma camiseta no centro de Flint!”. Esses jornalistas em Michigan estavam tão felizes que eu passei um bom tempo lá. Normalmente eu lido com tabloides ingleses, então essa foi a coisa mais meiga que já aconteceu comigo em relação a mídia.

Gary Oldman deu uma entrevista a Playboy ano passado, em que disse “Daniel Radcliffe, ele sim tem dinheiro pra caramba”. Você teve algum ressentimento em relação ao seu sucesso?

Gary me apresentou essa expressão. Quando eu fiz o meu primeiro filme não-Harry Potter, o December Boys, fiquei muito amigo de um dos grupos de maquiagem. Depois de algumas semanas, eu disse “Então, honestamente, o que vocês esperavam quando eu cheguei?”. E eles disseram: “Achamos que você ia ser um idiota.” Porque essa é a noção que as pessoas têm de atores crianças. As pessoas esperam que eu seja um estúpido. E quando não sou, isso sempre vem a meu favor.

As pessoas esperam que atores mirins sejam idiotas porque muitos deles são. O que foi diferente com você?

A única coisa em que eu posso pensar é que eu e os produtores de Harry Potter tivemos sorte, pois eu gostei pra caramba do trabalho. Já vi crianças nos estúdios que estão entediadas, e eu digo “O que você está fazendo? Esse é o melhor lugar do mundo!” Adorei tudo relacionado. Eu adorava estar no estúdio, adorava as horas, adorava as pessoas. Adorava as coisas loucas e bizarras que eu fazia todos os dias. Atuar era o meu foco, e eu não faria nada que me prejudicasse em ser ator.

Você focou principalmente em filmes independentes de baixo orçamento desde que interpretou Potter. Será que as pessoas jamais vão te ver como algo além do Harry?

Uma das coisas positivas para atores como eu que ficaram presos em um personagem por muito tempo é a oportunidade para as pessoas me conhecerem. Eu não acho que Mark Hamill, por exemplo, tinha a mesma oportunidade das pessoas o conhecerem. Quando eu fui no programa do Jimmy Fallon e cantei a música de rap de Blackalicious, eu consegui um trabalho disso – interpretar Sam Houser em Game Changer, o filme sobre Grand Theft Auto. Fez o cara responsável pensar “Oh, ele é interessado em hip hop. Ele não é só um típico garoto branco arrumadinho”.

Qual foi a última coisa que você pesquisou no Google?

Isso é um pouco embaraçoso, porque eu fiz referência a isso antes na nossa conversa, e foi o pouco de informação que consegui: a altura mínima de um marinheiro. Eu estava lendo um roteiro em que eu iria interpretar alguém que diz ser um marinheiro, então pensei “Ah, vou dar uma olhada nisso”. A maioria das minhas pesquisas no Google e na internet em geral são no site da NFL.com, Deadspin e outros sites de esportes. Eu impus isso na minha namorada, e agora quando eu estou longe, ajuda ela a não sentir minha falta, dando uma olhada no Deadspin.

Você passou toda a sua adolescência fazendo os filmes do Harry Potter. Para a maioria dos garotos nessa idade, suas vidas se resumem em achar uma chance para se masturbar. Há tempo para isso em um estúdio de cinema?

Sim, eu era como qualquer outro garoto nesse sentido. Minha citação favorita sobre masturbação é do Louis C.K., algo como “Eu descobri isso quando eu tinha 11 anos, e não deixei passar um dia se quer”. Acho que comecei bem cedo, antes da adolescência. Mas não quando eu estava no set. Eu não ficava tipo “Quando o Alan Rickman vai conseguir terminar essa cena pra eu correr pro meu trailer?”. Tem uma outra sensação, de novo perfeitamente descrita por Louis C.K.: o medo logo após de ‘bater uma’ de que todos vão saber o que você fez. Seria embaraçoso andar de volta para o set e olhar nos olhos a realeza da atuação britânica, sabendo o que eu acabara de fazer.

Você é um ateu, mas também se identifica como judeu. Qual foi a última coisa judia que você fez?

A última coisa de judeu que fiz foi visitar minha avó. [risos] Isso conta? Minha mãe é judia; meu pai é protestante. Nós fomos judeus horríveis. Eu cresci com árvores de Natal. Comemos bacon. Minha avó é kosher, mas ela é simpática antes de ser kosher. Se ela for à casa de alguém e eles cozinharem bacon, ela vai falar “Eu não quero fazer um fuzuê”. Talvez ela não seja simpática – talvez ela realmente queira bacon, em segredo.

Quando você estava fazendo Equus na Broadway, você ficou pelado por um bom tempo da peça. Você teve que ficar duro?

Cara, não tinha oportunidade para isso. Eu estava no palco durante todo o show, e eu corria pelado por 10 minutos em uma cena sobre fracasso sexual e cegar cavalos. Mas eu ouvi histórias de atores colocando um elástico envolta do pênis. Se você ficar excitado e aí colocar um elástico na base dele, mantem o sangue lá, e aí você tira e vai para o palco. Eu teria que fazer isso uma hora e meia antes. Tenho certeza que ia me castrar. Estava muito assustado e tinha só 17 anos quando fiz Equus, que é a idade em que você está mais autoconsciente. Eu sabia que uma certa porcentagem da audiência estava indo só para olhar o meu pênis todas as noites. Pensando nisso, foi uma loucura. Tenho muito respeito por mim mesmo por ter a coragem de ter feito isso.

Você é filho único, e já disse que quer ter vários filhos. Sua infância foi solitária?

Não muito. Você amadurece muito mais rápido – me tornei muito bom em me entreter. Por razões egoístas, gosto da ideia de várias crianças. Quero tipo um Onze Homens e Um Segredo de crianças.

Eles vão roubar um cassino?

E o asiático vai ser flexível e um grande ginasta. [risos] Seria ótimo se eu pudesse criar as crianças para fazerem isso. Você provavelmente pode fazer isso com menos que onze, se começar a treina-los bem cedo.

Você tem 26 anos, o que significa que já é famoso por mais da metade da sua vida. Estranhos sentem como se te conhecessem desde a infância?

Ser reconhecido nas ruas te ensina que a maioria das pessoas são simpáticas e boas, e apenas querem uma foto. E então você tem o idiota ocasional. Normalmente eles estão bêbados. Os idiotas querem uma foto também, mas eles querem ser idiotas enquanto tiram a foto com você. Eles começam com “Só pra você saber, eu nunca gostei muito dos filmes do Harry Potter”. Obrigado, imbecil; isso é tipo só 10 malditos anos da minha vida. Uma vez uma garota chegou em mim e disse “Posso tirar uma foto?”, eu disse “Sim, claro, se você quiser”. E ela diz “Bom, eu não teria perguntado se eu não quisesse”. Que merda? [risos] E, claro, eu sendo eu, só falei tipo “Desculpe, foi bobeira minha”. Então ela sai andando e a Erin diz pra mim “Aquela garota foi uma estúpida com você. Você não tem que ser simpático com alguém que é rude”. Mas eu sou melhor em dizer não do que o [coator de Harry Potter] Rupert Grint. Ele já foi uma vez para a casa de um fã porque ele não conseguia dizer não para nada que o pedissem. Isso já é ir longe demais.

Entrevista traduzida pela May








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