[TRADUZIDA] Entrevista do Daniel Radcliffe para a Big Issue / Autor: Letícia Brandão

Trump, extremismo, teorias da conspiração, Dumbledore – Daniel Radcliffe tem muito em mente

Lançando novos feitiços nos teatros de West End, com Harry Potter e A Criança Amaldiçoada, e se preparando para tecer magia nas telas dos cinemas com o próximo sucesso de bilheteria, Animais Fantásticos & Onde Habitam, o estoque de Harry Potter é o maior dos últimos cinco anos.

Mas, durante esses cinco anos desde o lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II, o jovem ator que cresceu sob a sombra do menino bruxo tem escolhido papéis ousados e desafiadores para criar um espaço considerável entre ele e Hogwarts. Desde que desembarcou em Hollywood, Daniel Radcliffe foi um advogado assombrado no aterrorizante filme A Mulher de Preto, um amante sobrenatural em Amaldiçoado, deu vida ao iconoclasta Allen Ginsberg em Versos de um Crime e inovou no papel de Igor, o ajudante do protagonista que deu nome ao filme Victor Frankenstein.

Este mês, Radcliffe deu um novo salto na carreira com dois novos papéis substanciais em filmes completamente opostos entre si. Imperium é um suspense intenso em que Radcliffe interpreta um agente disfarçado do FBI que se infiltra em um dos grupos de supremacia branca nos Estados Unidos, enquanto que em Swiss Army Man ele dá vida a um cadáver (batizado de Manny) à deriva em uma ilha deserta, oferecendo companhia e possível salvação ao náufrago Hank (interpretado por Paul Dano), durante os noventa minutos de duração do filme. Ambos os papéis – por razões completamente diferentes – são mais malucos e exigiram mais coragem do que qualquer outra coisa que Radcliffe já fez antes.

Durante a entrevista ao The Big Issue, a energia do ator de 27 anos era contagiante, intensamente educado, confiante e confortável, as palavras fluíam de sua boca em frases que começavam, paravam, recomeçavam e vagueavam por diversas tangentes. Ele percorreu um longo caminho desde o salão comunal da Grifinória.

É gratificante, na condição de ator, ter dois filmes em lançamento que são tão diferentes entre si?

Muitas vezes, eu recebo mais crédito do que eu mereço na escolha de projetos tão diversos. Eu acho que todo ator quer e tenta fazer isso. Acho que por ter interpretado um só personagem por tanto tempo, as pessoas notam mais quando é comigo. Mas sim – definitivamente é incrível fazer parte de dois projetos que são tão diferentes entre si, tanto nas histórias, como na forma em que são contadas.

Muitos atores gostariam de uma carreira diversificada, mas, ao mesmo tempo, nem todos gostariam de interpretar um cadáver…

Eu acho que muitos outros atores gostariam de ter interpretado um cadáver, se tivessem lido o roteiro e visto o quão criativo, maluco e brilhante, ele era. Swiss Army Man, é o que eu chamo de um filme unicamente cinematográfico. Aquela história, não teria como ser feita nos palcos, não teria como ser contada em um livro – e é isso que o torna tão emocionante.

Você escolhe projetos que lhe permitam atuar ao invés daqueles que apenas te tornam uma estrela de cinema?

Atuar em filmes com grandes orçamentos não é, necessariamente, uma coisa mais fácil de se fazer; na verdade, eles são muito mais difíceis de se fazer bem feito, porque muitas pessoas estão envolvidas. No entanto, o que aconteceu comigo é que os roteiros que mais me deixaram animado e interessado, no decorrer do último ano, foram os de filmes menores e independentes. Uma garota uma vez me perguntou em um painel de Perguntas e Respostas de uma convenção, “por que você escolhe projetos tão estranhos?”, eles não são estranhos, para mim. Eu acho que uma das alegrias em atuar é que você não precisa ser completamente fiel à vida real.

Falando em ser fiel à vida – ou fiel à morte – eu vi algumas fotos de você e do seu dublê (um boneco) juntos. Vocês continuam em contato?

Eu não fiquei com ele. Eu deveria ter checado para onde ele estava indo ou quem iria ficar com ele. Eu acho que está com o chefe do departamento de Maquiagem, Jason Hamer, mas eu não sei. Talvez ele tenha vendido no site do eBay.

Tenho certeza que deve haver vários colecionadores de moldes do corpo de Daniel Radcliffe.

Espero que não. Em Harry Potter, fizeram um molde da minha cabeça, do meu braço, acho que até do meu pé – definitivamente fizeram um molde do meu corpo inteiro pelo menos duas vezes. Eles estão em alguma parte do mundo. Nick Dudman, o responsável pelas Próteses em Harry Potter, provavelmente, tem acesso a um armazém cheio de moldes de todos nós.

Vai ser a base para a próxima grande exibição que eles tiverem.

Meu Deus, isso seria engraçado.

Atuar como um cadáver faz você pensar sobre a própria mortalidade?

Faz sim, por mais que de uma maneira específica e estranha faça você pensar na morte. É engraçado, eu vejo Manny como um morto bem empolgado, o que faz parecer que estar morto talvez não seja tão ruim. Se não houvesse a morte, a vida continuaria para sempre e ficaria incrivelmente tediosa e não seria especial. Sempre nos fizeram pensar que isso é uma coisa assustadora – porém tem que acontecer.

Imperium explora o amedrontador crescimento da intolerância, levando ao extremismo. Isso é algo que você nota no mundo ao seu redor?

Eu vejo isso em todos os lugares no momento. Existe uma moda horrível de culpar o que não é comum e qualquer coisa estrangeira tanto na Grã-Bretanha quanto na América – não estou dizendo que é onde a Grã-Bretanha e a América estão, mas eu acho que é a localização de muitas pessoas nos países citados.

Que tipo de pesquisa você fez sobre o movimento da supremacia branca?

Dan [diretor de Imperium, Daniel Ragussis] me mandou inúmeros livros que formaram uma pilha horrível. Eu teria alguém em casa conversando comigo e iria perceber que os livros estariam lá, ah merda – eles provavelmente viram minha pilha de livros Nazistas. Devo explicar para eles… Talvez eles não tenham vistoeles não mencionaram nada… Mas e se eles viram e só não quiseram comentar? Os quadros de mensagem na internet são os lugares que você deve ir se quiser o ódio gratuito. Não as pessoas que têm livros publicados – as pessoas que leem esses livros e depois discutem sobre eles na internet. O que eu achei fascinante e inesperado – e, de certa maneira, obscuro, divertido e engraçado – é em como nesses lugares você encontra conversas do tio “Ei, eu encontrei uma receita incrível para alguma coisa!”

Você começou a entender o que atrai pessoas para esses grupos?

Imagine se você perdeu seu emprego, sua esposa o largou e alguém aparece e diz: “Na verdade você não perdeu seu emprego porque você é horrível e sua esposa não te deixou porque não te ama mais – é uma grande conspiração contra nós, como brancos.” O ponto de vista deles se torna incrivelmente simples e nada é mais complicado para eles.

Todos nós gostamos de teorias da conspiração. Quando você falou com a The Big Issue ano passado, você disse que a sua favorita era a que Donald Trump estava comandando uma campanha falsa para ajudar Hillary Clinton a entrar na Casa Branca.

Ainda é a minha favorita, ainda espero que seja verdade! Mas tenho cada vez menos certeza sobre sua veracidade. Às vezes ele [Trump] parece um cara que está tentando sabotar a si mesmo por causa de algumas coisas que ele faz. Todos esses momentos – você deve saber que está estragando tudo apenas por dizer isso! Mas agora se tornou ainda mais assustador porque seus novos ajudantes parecem tê-lo colocado ainda mais em um roteiro. Isso é assustador.

Imperium mostra que a verdadeira ameaça não vem do terrorismo além das fronteiras, mas sim do extremismo doméstico.

Certas pessoas, nos Estados Unidos e aqui, são propensas a pensar que o terrorismo acontece por parte de apenas um grupo, o que é, obviamente, falso. Não importa quantas vezes veremos bem articulados estudiosos muçulmanos na TV falando sobre o fato de que, obviamente, não são representados pelos terroristas, e mesmo assim existem grupos de pessoas que estão tentando tornar terrorismo e Islã sinônimos.

O filme começa com uma frase: “Palavras constroem pontes em regiões inexploradas,” que foi dita por Hitler. Mas a palavra “terrorismo” e o medo que ela causa, são a maior e mais poderosa arma que poderia existir?

Acho que sim, de certa forma. É, também, um método de controle, particularmente se você consegue controlar o que as palavras virão a significar. É assustador quando você começa a perceber, particularmente nos Estados Unidos agora, assistindo algum discurso do Trump, que foi feito para que as pessoas odeiem e temam umas as outras. É desanimador.

Porém ao mesmo tempo, como Dumbledore diz: “Palavras são, na minha não tão humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia.” Então tomara que ainda seja possível ter um potencial de positividade.

Sim, absolutamente. Completamente. Definitivamente. Boa citação.

Entrevista por: Big Issue
Tradução e Adaptação: Letícia Brandão e Andressa Macedo.








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