[TRADUZIDA] Entrevista para a Nylon / Autor: Andressa

Daniel Radcliffe atuando como um (falso) skinhead e raspando a cabeça nas telas

Daniel Radcliffe desistiu de sua varinha mágica anos atrás, e ainda assim, quando ele aparece em algum filme a audiência não deixa de notar como seu novo papel é diferente de um certo bruxo. Parte disso é porque os personagens não são tão icônicos como Harry Potter, porém é também pelo fato de Radcliffe procurar por material diferente.

Seu último papel no suspense ‘Imperium’ não é diferente, com a estrela de 27 anos atuando como um brilhante agente do FBI que se disfarça de skinhead, com a intenção de infiltrar-se em um grupo branco supremacista na esperança de impedir um ataque contra a pátria. O diretor do filme, Daniel Ragussis, baseou seu script em experiências reais de Mike German, cuja a inteligência e fala mansa inspiraram Ragussis a aceitar Radcliffe no incomum papel do agente do FBI. Mais cedo essa semana, encontramos os dois “Daniels” para discutirmos sobre a natureza obscura do mundo que eles exploraram, os assustadores paralelos que o filme faz com eventos reais, e se Hitler foi mesmo viciado em drogas.

Daniel, eu acho que foi a primeira vez que você segurou uma arma em um filme. Como foi?
Daniel Radcliffe: Não contando o filme que fiz para a TV na Inglaterra, essa foi a primeira vez. Eu demorei um pouco para me acostumar porque não é algo que eu esteja acostumado.

Dan, quando você estava escrevendo o script, você estava pensando no Daniel como o principal? O que o fez pensar nele para esse papel?
Daniel Ragussis: Muito veio do meu trabalho com Mike German, que foi meu co-escitor e o agente do FBI no qual foi baseado o filme. Mike era tão diferente do que um agente do FBI seria tipicamente. Ele era muito educado, com uma fala bem calma e culto. Foi legal encontrá-lo e ver como ele era diferente do que eu pensava. Ele me explicou que um agente disfarçado do FBI deve conquistar as pessoas em situações sociais e durante interações, além disso deve ser aquele cara que todos confiam e essas coisas. Então, desde o começo, quando eu estava planejando a história, eu pensei que isso era algo realmente interessante. Então, quando comecei a criar o personagem, alguém como o Dan se tornou perfeito para o papel.

Daniel, você acabou de promover ‘Swiss Army Man’, onde a maioria das discussões foram em torno do seu papel de um cadáver flatulento. Imagino que promover esse filme tenha sido bem diferente.
Daniel Radcliffe: Tem sido um bom verão. De certa forma, ambos são ótimos filmes para se falar sobre porque, de maneira diferentes, tem muito a ser discutido sobre os dois. Quando eu fiz uma comédia romântica, as entrevistas foram as piores para mim. Foi quando eu percebi que atuar em comédias românticas dá às pessoas uma desculpa para perguntar sobre sua própria vida. Com ‘Swiss Army Man’ você pode falar de qualquer coisa, desde um pênis robótico até ter o meu traseiro moldado ou então de como o ator Paul Dano é bom. E com esse filme, é como conversar com um verdadeiro agente do FBI, além disso falar sobre coisas relacionadas ao mundo real que são retratadas no filme.

Foi perturbador estar cercado por toda essa iconografia supremacista branca no set? Isso te afetou?
Daniel Ragussis: Eu estive trabalhado com esse material por tanto tempo que eu perdi minha sensibilidade para tal assunto em um modo bom. Para mim o mais difícil foram os estágios iniciais. Tiveram, talvez, uns três ou quarto meses em que eu estive basicamente lendo todo esse material, tudo desde trabalhos que foram criados por pessoas que adotaram essa ideologia até biografias de pessoas envolvidas no movimento. Foi muito obscuro e difícil, não apensa porque as ideologias são obscuras, mas porque você percebe que está correndo contra um nível de convicção nessas pessoas que é tão inflexível, isso é tão duro, é tão – para eles – logicamente consistente e rigoroso, que é complicado descobrir como você pode entrar lá e mudar a cabeça de alguém.
Daniel Radcliffe: Não acho que eu tenha me acostumado, mas muito mais difícil que [ver] os símbolos e essas coisas, foi dizer essas coisas – isso foi complicado e estranho. Porque já tem em mente que todos sabem que você está atuando e não é real, mas ainda parece uma merda quando sai da sua boca. Eu estava checando os outros atores depois das cenas dizendo, “me desculpe, me desculpe mesmo.” Eu definitivamente não acho que você se acostume com isso, não em um curto período. Acho que o que Dan [Ragussis] disse é verdade.
Daniel Ragussis: Você tem que criar uma tolerância.
Daniel Radcliffe: A propósito ‘Mein Kampf’ é hilário, porque eu percebi que não é apenas a autobiografia de Hitler, é o que ele pensava sobre literalmente tudo – tipo, supermercados! Acho que é porque foi escrito na prisão.
Daniel Ragussis: No livro ‘The Rise and Fall of the Third Reich’, você pode ler sobre como ele se comportaria em um jantar, sentando e apenas expondo sua opinião sobre tudo de uma peça que ele assistiu, e todos deveriam estar sentados com as reações “Ah é, isso é fascinante!” ele certamente gostava de se ouvir falando.
Daniel Radcliffe: Todos os nazistas, eles estavam todos drogados. Quase todos os Aliados e Axis Power estavam durante a Segunda Guerra Mundial, todos estavam – Churchill estava tão bêbado. Churchill era considerado um grande bêbado quando todos bebiam bastante. É impressionante quando você pensa sobre todas essas pessoas no poder.
Daniel Ragussis: A única exceção sendo Hitler, que era um abstêmio.
Daniel Radcliffe: Ele usava metanfetamina! Usava pílulas de estímulo cerebral e essas merdas!

Daniel, você raspou sua cabeça na frente das câmeras, o que significa que você tinha apenas uma chance de fazer a cena certo. Isso te pressionou bastante?
Daniel Radcliffe: Isso foi muito divertido, na verdade. Eu realmente gostei disso, e foi divertido porque Dan [Ragussis] estava na minha frente e de certa forma me guiando, e, uma hora, você estava tipo, “Você pode fazer isso de forma mais violenta?” Porque eu comecei a fazer isso e estava tipo, “Isso irá durar uma eternidade,” então comecei a ir mais rápido, e pelo canto dos meus olhos, pude ver o Dan tipo, “Isso!” E até um pouco do pessoal começou a me incentivar.

Vocês fizeram algo no set para melhorar o clima entre as cenas ou depois de pronto?
Daniel Radcliffe: Eu acho, geralmente tínhamos um clima mais tranquilo no set por causa do filme intenso. Eu acho que tentamos manter as coisas mais calmas. Eu me lembro que Paul Dano me contou sobre as filmagens de ‘War and Peace’ que o diretor realmente queria manter as coisas bem calmas porque quando você está fazendo algo tão intenso por tanto tempo, você não pode existir durante todo esse tempo.

Este filme é mais sobre o poder das palavras, a habilidade que elas tem em incitar a violência, e que é responsável por tal violência. Isso parece especialmente persistente na época que Donald Trump usava retóricas perigosas em um palco nacional. Você pensou nesse paralelo?
Daniel Ragussis: Tenho duas respostas. Primeiro: Um dos grandes pontos temáticos de interesse para mim no começo era o poder das palavras. Digo, quando você repara em alguém como Hitler essa era a única habilidade e ferramenta que ele tinha – jeito com as palavras – e todos sabemos até onde isso chegou. Nos termos de Trump, o que eu disse é que nunca foi minha intenção criar um filme político ou tentar associá-lo com qualquer figura política ou algo do tipo. Não acho que isso seja possível. Mas eu acho que a sensação que as comunidades retratadas no filme têm e que a maior comunidade tem – aquela sensação de exclusão e vitimização – acho que é algo muito real, e é profundamente importante para nós entender que nos termos da política isso acontece aqui e na Europa. É o motivo pelo qual um estado de direita pode ser eleito na Áustria. É a razão pela qual essas coisas estão acontecendo. A tendência de se sentir uma vítima, ou se sentir oprimido ou identificar outro grupo e derramar seus problemas nos pés desse grupo, acho que isso é uma coisa massiva que realmente está ocorrendo no momento, tanto aqui quanto na Europa.

Daniel, alguns críticos perceberam que este é outro exemplo de que você está propositalmente tentado se livrar de Harry Potter. Isso é verdade, ou você simplesmente está escolhendo o melhor material?
Daniel Radcliffe: Nem todo filme que eu fizer pelo resto da minha vida é um comentário de Potter. Eu acho que eu recebo muito crédito que não mereço por tentar fazer coisas diferentes porque todos os atores que eu conheço querem fazer isso. Mas está tudo bem. Eles dizem isso de ‘Equus’ e disseram o mesmo em ‘Kill Your Darlings.’

Acho que é porque você faz muitas escolhas interessantes.
Daniel Radcliffe: Aceitarei o elogio. É definitivamente um que devo estar tipo, “Não, não é sempre assim.” Sim, quero que isso seja diferente de Potter, mas também quero que seja diferente de qualquer outra coisa que eu já fiz.

Entrevista por: Ben Barna – Nylon
Tradução e adaptação: Andressa Fernandes








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