The Guardian: Review de Rosencrantz & Guildenstern Are Dead / Autor: Andressa


A peça é o objeto. Cinquenta anos depois de sua première neste mesmo teatro, a comédia filosófica de Tom Stoppard ainda brilha.

Isso ajudou as estrelas desse revival, Daniel Radcliffe que é perfeitamente acompanhado por Josua McGuire, e a viva e inventiva produção de David Leveaux. Mas é o espírito do jovem Stoppard que mantém a peça fresca e vívida.

O que impressiona é o alto risco que Stoppard expõe. Em nenhum momento você tem ideia de que construir uma peça inteira em torno de duas figuras secundárias poderia facilmente desmoronar.

Há, naturalmente, ecos óbvios de Beckett que Rosencrantz e Guildenstern estão incertos de seu passado, intrigados pelo presente e cegos quanto o futuro. Mas se a peça ainda funciona, é por que Stoppard atinge um surpreendente equilíbrio entre a comédia e a consciência pungente de mortalidade.

A comédia se encontra bem nessa produção porque os dois atores principais são nitidamente contrastados. O Rosencrantz barbudo de Radcliffe é magro, ansioso e propenso a ataques súbitos de pânico.  O Guildenstern de MacGuire tem boa aparência, dentes e determinado em olhar o lado positivo. Cada um, às vezes, compartilha das qualidades do outro. Mas eles formam uma dupla clássica na qual a troca de faíscas disfarçam o fato de que ambos estão lutando para encontrar identidade e propósito em um mundo que faz pouco sentido.

Não é tanto que a absurda filosofia da peça mexe com sua obsessão com a morte. É o Rosencrantz de Radcliffe que pergunta, em uma das falas mais ressonantes de Stoppard: “O que aconteceu no momento em que a pessoa soube pela primeira vez sobre a morte?” Mas é Guildenstern de McGuire que torna a linha socrática prática que “desde que nós não sabemos o que a morte é, é impossível a temer. ”

Como o jacobiano John Webster, Stoppard é “muito possuído pela morte”. Ele também tira um golpe esplêndido do Player cujo trabalho é falsificar a extinção da ordem. Esse papel aqui, é ricamente interpretado por David Haig, que sugere um empresário e um estilo Vicent Crummles. Haig adota a mão trêmula e o boom sonoro de um velho tragediano.

Ao mesmo tempo, ele sugere que a trupe viajante em seu comando forneça favores sexuais e que ele próprio é amorosamente fixado pelo seu jovem líder, interpretado por Matthew Durkan. Como Radcliffe e McGuire são, é Haig que vem para roubar a noite. Mesmo que a ação fique momentaneamente na última parte, a produção de Leveaux mantém o poder em movimento e é cheia de toques espirituosos; as erupções de Hamlet são bem feitas, com Luke Mullins como o príncipe ostentando exatamente o mesmo perfil como John Neville em seu papel no Old Vic há muito tempo, e a cena fica fora de controle com os atores ficando sexualmente entusiasmados.

O design de Anna Fleischle, com suas telas cobertas de nuvens, acrescenta um toque de Magritte a noite. O fato é que esta é a peça de um jovem homem que ainda parece brilhante, revigorando e se move em sua preocupação com a inevitabilidade da morte.

Escrito originalmente por: Michael Billington – The Guardian
Tradução e adaptação: Gustavo Borella



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